Economia: Tempo perdido

Nestes tempos de dólar alto as pessoas me perguntam se com isso nossas exportações não deveriam aumentar e por consequência ajudar a nos tirar do buraco imenso onde nos enfiaram.
Digo que não e a razão é simples de entender. Os timings são diferentes e o governo é incapaz de reconhecer isso, até porque está tão distante do mundo real que sequer compreende como uma tomada de decisão dentro do ambiente corporativo é tomada.
Naqueles tempos de nova matriz macroeconômica inventada pelo gênio Guido Mantega e seus discípulos, acreditava-se que o ajuste deveria vir pelo lado da demanda e não pelo lado da oferta, que é onde realmente temos problemas.
Em um prazo recorde, destruiu-se o que restava da nossa indústria, transferindo-se renda para o exterior através de um aumento substancial das importações e consequente derretimento de nossa balança comercial.
Pois bem, a conta chegou e não vou me estender sobre este tema, que já abordei antes. O que ocorre é que com o aumento do dólar, que aliás está longe de ter acabado, nossa indústria ganha lampejos de competitividade, mas que não serão duradouros porque não atacam a raiz do problema que enfrentamos.
Nossa indústria não possui a menor condição de competir a nível internacional porque simplesmente não está inserida no contexto mundial. À exceção do agronegócio, a manufatura brasileira não é capaz de competir por conta das leis trabalhistas, da carga tributária, da burocracia e da infraestrutura pífia e cara que possuímos. Não é por causa do dólar, seja ele alto ou baixo. Esqueçam o dólar.
Hoje na indústria está se discutindo o produto que será vendido em 2017. Não o que será vendido amanhã. A escolha dos fornecedores mundiais ocorre hoje para um produto que sairá da linha de produção lá na frente e portanto, mudanças na taxa de câmbio hoje terão pouco ou nenhum impacto sobre as exportações brasileiras de manufaturados. O que está sendo exportado hoje foi definido há 18 meses....
Aí  o nosso herói empresário precisa tomar a decisão hoje de exportar amanhã, sem saber se amanhã terá condições de competir no mercado externo. Porque se o dólar não estiver nas alturas, ele não será competitivo.
Dissídios automáticos de 10% ao ano, aumentos de impostos e na complexidade de administrar o dia a dia da empresa, lançamentos contábeis sem fim, majoração de preços administrados e por aí vai e ao final de uns poucos anos nossa melhor competitividade foi por água abaixo e os velhos problemas ressurgirão.
Temos que mexer na origem dos problemas e não acreditar que todas as nossas mazelas de falta de competitividade e produtividade serão magicamente resolvidas com desvalorização cambial. Como sempre, perdemos tempo e não discutimos o que deveríamos discutir. Enquanto isso, outros países vão fazendo suas lições de casa e nos deixando para trás. Será que ainda temos todo o tempo do mundo? Será que temos nosso próprio tempo? 

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