As mulheres no transporte

Cuidados com o caminhão, educação no volante e respeito às leis de trânsito são alguns dos motivos apontados pelas transportadoras ao contratar profissionais carreteiras. De acordo com levantamento divulgado pelo Departamento de Trânsito (Detran) do Rio Grande do Sul em 2010, o número de motoristas mulheres cresceu quase 60% em relação aos índices registrados no ano de 2001. O que em números representou aumento de 710 mil para 1,1 milhão de condutoras no Estado gaúcho. Com relação ao comportamento no trânsito, a pesquisa aponta que em 2009 as mulheres cometeram 313 mil infrações, enquanto os homens foram responsáveis por mais de 1 milhão.

Ainda segundo dados do estudo, o número de mulheres que exerce atividade remunerada com o veículo é de 45 mil entre 1,1 milhão, ou seja, 4%. Além de desmontar o ditado popular “mulher no volante, perigo constante”, a pesquisa confirma o bom desempenho do sexo feminino no volante, uma capacidade tanto igual quanto superior a dos homens.

Pensando nisso, o mercado de transporte de cargas tem investido na contratação de motoristas do sexo feminino. A Braspress, companhia de encomendas urgentes, é um exemplo disso. Há mais de 12 anos, a empresa de atuação em todo o Brasil passou a contratar carreteiras e a desenvolver um programa de treinamento específico para elas. O projeto tem como objetivo torná-las verdadeiras profissionais do volante. A ideia lançada pelo diretor-presidente da transportadora, Urubatan Helou, tem rendido a companhia significativos resultados. “Nossos controles internos mostraram que as motoristas mulheres têm maiores cuidados operacionais com os veículos, colaborando para a manutenção dos caminhões, sabem ser educadas nos relacionamentos com os clientes e no trânsito são pacientes, o que levou a redução de batidas e dos custos de manutenção, incluindo funilaria”. Urubatan reforça que devido a tal desempenho, a companhia tem procurado incentivar a participação de mulheres no Setor de Transportes. Atualmente, a Braspress emprega 757 motoristas, deste total 264 são do sexo feminino e quando considerado o contexto geral de 5.465 colaboradores da empresa, representam 30% do quadro de funcionários.

Entre as contratadas pela companhia está Teresinha Iugas, profissional com 49 anos de idade e sete anos no mercado de trabalho como carreteira. “Comecei na profissão aqui mesmo na Braspress, antes trabalhava na área administrativa”. Mãe de três filhos, Daniel de 26 anos, Danusa de 25 e a adolescente Giovanna de 15, Teresinha admite que no começo da profissão as dificuldades que encontrava estavam relacionadas ao preconceito. “Alguns motoristas gritavam: Vai pilotar fogão ou vá lavar roupa” conclui . Hoje, ao comandar um Mercedes-Benz Atego 1315, caminhão de médio porte, explica que a situação é diferente. Seus problemas do dia a dia no trabalho estão ligados à falta de lugar para estacionar, descarregar e carregar. Atualmente, Teresinha trabalha em horário comercial de segunda a sexta-feira. Outra funcionária da Braspress é a carreteira Solange Beraldes, 46 anos e há nove na profissão. A motorista responsável pelo transporte de carga seca e fracionada durante o horário noturno pilota o extrapesado Mercedes Axor 1933. “Na visão das transportadoras ter uma mulher motorista é ter a certeza de que ela será prudente e cuidadosa na estrada”, ressalta Solange. Essa é a mesma opinião de Maria Aparecida Lamin, diretora de RH da TNT Express. “Gosto muito de contratar mulheres para o cargo de motorista, pois elas são mais cuidadosas, realizam todo o check-list antes de sair da garagem e cometem menos infrações”. Dos 8.000 funcionários TNT, 20 são motoristas mulheres. A Rápido 900 é outra transportadora que confia no potencial do sexo feminino sob o volante de seus veículos. Do total de 1.400 contratados, 13 são motoristas mulheres, o que representa 2% no quadro de funcionários. “A tendência é este número se elevar neste e nos próximos anos, pois estamos contratando e agregando profissionais, sem restrição de gênero” afirma o diretor da companhia, André Ferreira. O executivo destaca que além de profissionais carreteiras, a Rápido 900 busca também mulheres para a função de ajudante.

O outro lado da moeda

As mulheres no mundo dos transportes não são apenas as que vivem da profissão de carreteira. Esposas de motoristas também levam uma rotina de vida pouco convencional. Isso porque devido à profissão, o marido passa muito, mas muito tempo na estrada e longe de casa. Por conta disso, casar com um carreteiro exige da esposa preparo tanto para lidar com a distância, quanto com os momentos de solidão e a responsabilidade de administrar a família sozinha. É o caso da dona de casa Ellen Cristine Dias Silva-33 anos - e há quase 14 casada com o motorista de caminhão Luelson Lima da Silva. Ellen conta que a cada viagem que o marido realiza ele fica de um a dois meses fora de casa. “Uma vez ele ficou quase um ano na estrada”. Com a ausência do marido, a dona de casa teve de lidar sozinha no dia a dia com a educação dos dois filhos do casal, as crianças Lohan de três anos e Rayssa de cinco. Na profissão por mais de duas décadas, Luelson decidiu deixar a vida de carreteiro ainda no início deste ano. O motorista acaba de ser contratado por uma empresa de ônibus e com a mudança estará em casa, perto da família, todos os dias.

Elaine Roseno entende muito bem a situação vivida por Ellen Cristine durante os anos em que Luelson foi carreteiro. Elaine de 36 anos há cinco está casada com o também motorista de caminhão Jadiel Teixeira. A cada trajeto que faz, o marido fica sete dias longe da família, enquanto isso, Elaine administra os problemas da casa e a vida de seus quatro filhos frutos do primeiro casamento: Willian de 19 anos,Larissa de 14, Carol de 13 e Luís Roberto de nove anos.

Para Márcia Santos de 32 anos, há cinco casada com o motorista de caminhão Luís Carlos dos Santos, poder conversar com o marido enquanto ele está em viagem é um grande problema. “Nem todo lugar na estrada tem sinal, por isso, conversar com meu marido não é fácil”. Márcia explica que pelo fato do casal não ter filhos, as dificuldades vividas no relacionamento devido à profissão do marido são menores. “Acho que se tivéssemos filhos encontraria mais problemas no casamento, pois precisaria mais do meu marido”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
imagem-logo
© Guerreiros do Asfalto DF - 2012 - Todos os direitos reservados.
Tecnologia do Blogger.
imagem-logo