Acidentes em rodovias federais que cortam o DF, como BR-070, crescem 21,5%

Publicação: 23/01/2012 06:59 Atualização: 23/01/2012 07:01
Rosana Couto, mãe de Duanny, pediu que os jovens escolham melhor as amizades; tio de Ingrid Anne sofreu um infarto e teve de ser levado para o HRT (Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Rosana Couto, mãe de Duanny, pediu que os jovens escolham melhor as amizades; tio de Ingrid Anne sofreu um infarto e teve de ser levado para o HRT

O coração de Francisco Malaquias, tio de Ingrid Anne Carvalho de Freitas, 15 anos, não resistiu a tanta dor. Ele sofreu um infarto em pleno o sepultamento do corpo da menina, ontem, no Cemitério Campo da Esperança em Taguatinga. O homem chegou a ficar sem os batimentos cardíacos e precisou ser reanimado pelos bombeiros. Francisco foi levado consciente, mas em estado grave, ao Hospital Regional de Taguatinga(HRT). Assim como ele, outros parentes e amigos dos seis jovens que morreram em um grave acidente na BR-070 passaram mal e precisaram de apoio.

As cinco garotas e o rapaz que conduzia o carro perderam a vida no sábado, após um capotamento na rodovia que corta o Distrito Federal. A combinação de alta velocidade, bebida alcoólica e imprudência no trânsito pode ter causado a tragédia, que aconteceu na altura do Setor O, em Ceilândia, quando o grupo de amigos voltava para casa, no P Norte.

Os velórios e os sepultamentos ocorreram no cemitério de Taguatinga durante toda a manhã e a tarde de ontem. Familiares e amigos lotaram quatro das seis capelas. Entre as homenagens, estavam panfletos com a foto das vítimas. O aposentado Francisco Dantas Martins, 68 anos, avô de Daniela Dantas Martins Barros, 17, segurava um banner com fotos da neta e os dizeres “Os bons morrem jovens”. Pouco antes do enterro, ele exibiu a faixa para a imprensa com a intenção de alertar jovens sobre o perigo do trânsito. Foram velados e sepultados também os corpos de Jéssica Souza do Nascimento, 18 anos; Espedito Sirqueira da Silva Júnior, 19; Francisca Rafaela de Souza Lima, 19; e Duanny do Couto Veras, 17. Espedito pegou, sem permissão, o carro do pai de criação, um Astra placa JFG 0712-DF, e foi a uma festa com o grupo de amigas. Na volta, capotou o veículo. Todos morreram na hora.

Na despedida de Duanny, amigos levaram um violão para cantar hinos religiosos que a garota gostava. A mãe, Rosana Laurindo Couto, discursou por duas vezes pedindo que os colegas da vítima tomassem cuidado com as amizades. “Peço a vocês, jovens, que saiam dessa vida de alcoolismo e drogas. Minha filha era uma menina linda e não tenho nada a reclamar dela, mas peço a cada um de vocês, nessa manhã, que escolham bons caminhos.”

Durante o enterro de Francisca Rafaela, familiares cantaram músicas católicas. A irmã Raiane de Souza Lima,14, passou mal e teve que ser acudida por parentes. No sepultamento, o pai pediu uma salva de palmas em homenagem à filha. O cortejo fúnebre de Espedito chegou logo após o enterro de Francisca, por volta das 14h30. A família manteve-se em silêncio durante a cerimônia. “Espedito era um rapaz independente e, às vezes, rebelde. Foi uma fatalidade”, disse a cunhada Daniela Rodrigues, 20 anos.

Uma das despedidas mais desesperadas foi a de Jéssica. A mãe da jovem, Valdira Souza, e o marido da jovem, Roger Souza Torres, 21, estavam tão nervosos que, por mais de uma vez, tiveram os batimentos cardíacos monitorados pelos bombeiros. Uma amiga da garota, Claudiana Barros, passou mal e também foi atendida pelos socorristas. Amigas de Valdira contaram que a mulher sofre de problemas do coração e tem cirurgia marcada. A auxiliar administrativa Renata Rodrigues, 32 anos, disse inclusive que mãe e filha eram muito unidas. “Isso abalou demais familiares e amigos. Tenho medo que ela (Valdira), não resista.”

O acidente teria ocorrido por volta das 5h, segundo investigadores da Polícia Civil, porém, o socorro só foi acionado duas horas depois. Isso porque o local onde as vítimas caíram era de difícil visibilidade e ninguém viu quando o Astra preto que vinha em alta velocidade perdeu o controle, saiu da pista e capotou por diversas vezes. Com as batidas, os corpos das cinco jovens foram arremessados o que leva a crer que estariam sem o cinto de segurança. Espedito foi encontrado dentro do carro.
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Risco
Os seis jovens entraram para a triste estatística de mortes no trânsito feita pelo Departamento de Trânsito (Detran). De acordo com o estudo divulgado pelo órgão no início do mês, as rodovias federais que cortam a capital do país, entre elas a BR-070, são as responsáveis pelo aumento de mortes no trânsito. No ano passado, o número de vítimas em acidentes fatais nessas vias cresceu 21,5% — passando de 76, em 2010, para 96.

De janeiro a outubro de 2011, 404 pessoas morreram no trânsito do DF. Desses, 53% tinham entre 15 e 39 anos de idade. Os homens somam 83% das vítimas. De acordo com o psicólogo e professor do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Gilberto Godoy, especialista em análise do comportamento, o motivo do crescimento de acidentes envolvendo jovens é a falta de preparo dos pais e das escolas na formação dessas pessoas. A bebida ocupa o lugar das instruções necessárias e se torna o catalisador de tragédias. “Os acidentes acontecem com os jovens porque eles estão no contexto de aprendizagem, porém, como falta orientação, os erros são maiores do que deveriam e se tornam fatais, como o caso desse acidente”, explicou.

Festa
Os jovens moravam no P Norte. Na noite de sexta-feira, eles combinaram de ir a um evento no Recanto das Emas, chamado de Festa dos Artistas. A maioria se conhecia e falou para os pais que ia se encontrar em um quiosque de cachorro-quente no P Norte. Na volta, sete pessoas ocupavam o Astra que era conduzido por Espedito. Ele não tinha Carteira de Habilitação. Uma adolescente escapou da tragédia. Ela desceu do carro quando o grupo parou para fazer um lanche e seguiu em outro veículo, com outros amigos.

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